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Arqueologia: Em busca do Cassino Perdido
Matéria publicada Mais Passeio - Ano 3 - Nº26 - maio de 2004

O Teatro-Cassino Beira Mar funcionou de 1922 a 1937 no terraço do Passeio Público



Foi descoberto o piso do subsolo do Cassino, à base
de ladrilho hidráulico em excelente estado de conservação



O calçamento do Cassino em pedra portuguesa
também foi encontrado nas obras de arqueologia


suposta estrutura de banheiro do sub-solo do Cassino
Muita gente que passa apressadamente pela Rua Mestre Valentim (de frente ao terraço do Passeio Público) mal pode imaginar que na década de 1920 existia naquele local um elegante edifício onde funcionou um cassino freqüentado pela elite carioca. O Teatro-Cassino Beira Mar foi projetado por Heitor de Mello inicialmente para funcionar como “Restaurante do Passeio Público”, ou um “restaurante envidraçado” no terraço do Passeio, como pediu o prefeito Carlos Sampaio em mensagem dirigida à Câmara Municipal em 1920.

Com a morte prematura de Heitor de Melo, em 1920, seus auxiliares, Archimedes Memória e Francisco Couchet, deram prosseguimento aos seus projetos, incluindo o edifício do Passeio. Contudo, o que seria restaurante tornou-se teatro e cassino. As fachadas foram mantidas do projeto original, mas o interior foi totalmente modificado.

O cassino funcionou de 1922 a 1937, promovendo grandes espetáculos, como o da dançarina norte-americana Josephine Baker. Na administração de Henrique Dodsworth são demolidos os prédios onde funcionava o Teatro-Cassino. Na ocasião, o jornal A Noite saudou a demolição do Cassino, chamando-o de emplastro pretensioso e floreado em que a engenharia municipal resumira, certa vez, a sua concepção da nova arquitetura brasileira.

Passados quase 70 anos da demolição do antigo Cassino, as obras de arqueologia realizadas no parque lançaram novas luzes sobre a história daquela edificação. A equipe arqueológica descobriu há algumas semanas o piso do sub-solo do Cassino, à base de ladrilho hidráulico de excelente qualidade. “É impressionante o acabamento da obra. Não tem nada quebrado, nada afundado. O piso está inteiro e olha que levou uma carga enorme de terra durante todos esses anos”, surpreende-se a chefe da Divisão de Monumentos da Fundação Parques e Jardins Vera Dias, que também é coordenadora das obras de restauração do Passeio.

O trecho encontrado, segundo a planta original do edifício, corresponde à área de cozinha do Cassino. As subdivisões do local ainda estão sendo investigadas, para que se saiba exatamente quais eram seus usos. Já se descobriu um banheiro, em uma área cuja parede mostra-se azulejada.

Também foram encontrados sob os entulhos do Cassino adornos, frisos de forros e tijolos, oriundos da demolição da própria construção. “Todo o material utilizado no edifício foi usado para fazer o aterro”, explica Jackeline de Macedo, arqueóloga do IPHAN que trabalha na obra do Passeio Público.

Estão sendo estudadas ainda as sucessivas modificações urbanas que a região do terraço do Passeio sofreu. É um quebra-cabeça histórico, onde se pode ver o trilho do bonde que passava ali, o meio-fio do Cassino e a calçada de pedras portuguesas que adornava o prédio. Várias épocas estão marcadas por seus asfaltos e meio-fios e descobriu-se que o nível da rua era mais alto na época do edifício.

A arqueologia trabalha com artefatos, não só móveis, mas também imóveis. A transformação da paisagem também é um artefato. Toda a edificação do Cassino pode ser considerada um super-artefato. Como uma construção desse porte pôde ser destruída e apagada da memória da população? A importância de se resgatar os restos do Cassino é o resgate da própria história do Rio de Janeiro”, explica a arqueóloga Jackeline.

A descoberta das ruínas do Cassino Beira-Mar mudou a história da restauração do Passeio. “Aquele prédio não tem apenas o significado de ser feito por uma elite para uma elite. Ele foi construído por um povo num determinado momento histórico por algum motivo. E esse motivo tem que ser mostrado. Por que ele foi construído, por que ele foi demolido, que sentido ele tinha para a história do Rio de Janeiro naquele momento?”, complementa a arqueóloga.

A idéia dos técnicos é dar àquela estrutura um tratamento museológico que possa transforma-la em uma espécie de museu-sítio arqueológico, para que a população conheça não só a história do Passeio, mas a história da própria cidade e se identifique com ela.

um trecho do pequeno espelho d·água que cercava
originalmente as pirâmides, obra de Mestre Valentim
Laguinho de Mestre Valentim
Não foi apenas o piso do antigo Teatro-Cassino Beira Mar o único achado arqueológico das obras de restauração do Passeio Público. Junto a uma das pirâmides do parque foi encontrado um trecho do pequeno espelho d’água que cercava originalmente as pirâmides. No projeto de Mestre Valentim, os obeliscos eram circundados por água. Na reforma Glaziou os laguinhos foram aterrados e construído um lago maior e mais sinuoso. As prospecções permitiram se obter a natureza do fundo do poço de Valentim: pedra e cal. Também se pode observar que a fundação da pirâmide é feita em blocos de pedra.

A arqueóloga do IPHAN Jackeline de Macedo trabalha
na área onde supostamente existiu a casa de Glaziou
Casa de Glaziou
Outro sítio arqueológico existente atualmente no Passeio refere-se a uma construção que supostamente teria sido habitada pelo paisagista Auguste Glaziou durante a execução das obras de reforma na década de 1860. Segundo a descrição de Moreira de Azevedo, “Do lado esquerdo do Passeio está a casa do Diretor, o Dr. Glaziou; é um chalé suíço com um peristilo sustentado por colunas de madeira, tendo na frente uma escada de pedra com sete degraus para cada lado”. A equipe de arqueologia já iniciou os trabalhos naquele local em busca de vestígios da construção, que, como explica Jackeline de Macedo, seria muito simples: “Era uma casa tosca, temporária. O piso é em terra-batida com resto cerâmico”.

Dentro de alguns dias terá início também a escavação na região onde se localizou o aquário construído pelo prefeito Pereira Passos em 1904.

as esculturas das Estações do Ano, já decapadas, estão protegidas por plásticos

Restauração Artística
No momento, as esculturas das Estações do Ano, obras de Mathurin Moreau e fundidas em 1860 no Val D'Osne, já foram todas decapadas e estão protegidas por plásticos à espera de aplicação de uma tinta especial.

O anjinho de chumbo, fundido em 1841 e cópia do original de Mestre Valentim, não será restaurado, e sim ganhará uma nova réplica. Destruído pela ação do tempo e (principalmente) do homem, o menino de chumbo será guardado no Museu Histórico Nacional. A nova réplica terá de volta todos os elementos que se perderam ao longo dos anos.

O trabalho mais importante que está sendo feito no momento na área de restauração artística é a decapagem da ponte de ferro fundido comprada por Glaziou no Val D´Osne e instalada sobre o lago na reforma de 1862. Os operários estão removendo todas as camadas de tinta que esconderam os detalhes delicados das rocailles. Após a decapagem será usada uma tinta com uma maior proteção anti-corrosiva, que também será aplicada nas peças de Mestre Valentim. A ponte de Glaziou tem valor histórico e artístico por ser um raro uso de rocaille em ferro fundido, quando o comum era o uso em argamassa. É também uma peça única e de difícil fundição.

Para a arqueóloga Jackeline de Macedo, a importância de se
resgatar os restos do Cassino é promover o resgate da
própria história do Rio de Janeiro
Drenagem
A drenagem está praticamente concluída, faltando fechar apenas pequenos trechos. Várias partes já foram feitas e aterradas. As caixas de drenagem estão sendo cobertas. Este trabalho de infra-estrutura, que nem sempre é visível, é de suma importância e no caso da drenagem ainda mais, por nunca ter havido uma rede no Passeio.

Acompanhe na próxima edição da Mais Passeio o quarto capítulo da série Diário da Restauração, e saiba detalhes sobre esse trabalho pioneiro realizado no jardim histórico, que, segundo a arqueóloga Jackeline de Macedo, “não está sendo feito apenas para recuperar a questão estética e formal, mas a própria história do parque e da cidade”.
A Fundação Parques e Jardins pede para quem possuir fotografias ou imagens do Passeio Público que possam auxiliar nos trabalhos de restauração, entrar em contato com a instituição.
Toda e qualquer contribuição será bem-vinda, com material original ou cópia (a FPJ se encarregará de escanear as imagens de quem não puder ceder o material).
Para mais informações, acesse o site do parques e Jardins (www.rio.rj.gov.br/fpj/) ou ligue para o telefone 2232 4398 - R: 204
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Pesquisa e Edição de conteúdo: LEONARDO LADEIRA

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